Sou Guarany de Bagé, é o que respondo quando perguntam qual é o meu time. É uma brincadeira, nem acompanho futebol, mas continua sendo o meu time primeiro.
As crianças aprendem a escolher seus times desde pequenas, e dependendo da paixão dos pais, às vezes antes de nascer. Algumas já saem do hospital fardados com a roupa do time do pai, orgulhoso de mais um torcedor, Pura "paixão"!
E não importa se o time vai mal no campeonato, ninguém abandona o time. Às vezes o time pode ser rebaixado mas a paixão.. .não. Algumas torcidas acompanham seus times em qualquer "indiada", vale viajar, atravessar o país e até o mundo para ver o time do coração jogar, E quando se fala do time adversário vale tudo para colocá-lo abaixo, para diminuí-lo sem enxergar suas vitórias. Na hora da discussão calorosa de dois adversários vale rebaixar a qualidade dos jogadores, técnicos e isso se aprende desde pequeno, quando se "escolhe" um time. Faz parte do pacote de ser torcedor fiel e se não for em exagero, é natural e pode-e considerar rivalidade saudável!
A hora do jogo é a hora de vestir a camiseta, pegar a bandeira e ir para o estádio, lugar de extravasar a paixão, xingar a mãe do juiz... mas isso não significa que a "progenitora" do mesmo tenha uma "conduta leviana". É apenas um desabafo e vale quase tudo e em tempo de câmeras por todos os lados, nem tanto.
O gol é comemorado com uma explosão de felicidade, abraços, pulos, gritos de guerra e até lágrimas, dependendo do quilate da decisão.
E aqui não importa o placar, se foi de "chocolate", se foi aos 47 minutos do segundo tempo ou se foi na decisão por pênaltis... Isso não faz a menor diferença na vitória...
E quando o jogo acaba o vencedor sai comemorando rua afora e pelas redes sociais tocam flauta no adversário, postam fotos de seu time, a massa vestindo a camiseta e vibrando... alguns extrapolam na comemoração... mas passa... è pura e cega paixão, para sempre!!!
No filme"O Segredo de Seus Olhos" o assassino é traído por sua paixão pelo seu time, sendo preso em pleno estádio de futebol, no meio do jogo, graças a um policial que afirmava que: "as pessoas trocam de amores, de cidade, de trabalho, de partido político, mas não trocam a paixão pelo time do coração. É paixão cega!
Mas o jogo acaba e seus efeitos vão até o outro dia, no máximo, e logo vem outro jogo, outro adversário... e recomeça tudo de novo. Mas a vida continua, como tem que ser, o convívio com os colegas de outros times, a brincadeira sadia, as piadas ocasionais, mas ninguém tem de pagar um preço por isso.
Partido político é coisa mais séria, normalmente escolhe-se depois de certo discernimento e maturidade, de acordo com sua vivência, ideais e sonhos para seu país. Alguns preferem apostar em pessoas , já que cada um é diferente do outro, senão votaria-se apenas em partidos e este escolheria quem iria ocupar o cargo.
Mas se meu partido tem prática diferente do discurso, se o partido não mais representa minhas idéias, não mais atua como eu imaginava e sonhava, posso trocar de partido ou simplesmente não mais ser filiado, seguidor ou simpatizante. Posso ser um livre pensador.
Mas isso acontece no Brasil???
Basta ver a paixão com que os perdedores choram e os ganhadores demonstram muito mais seu ódio aos adversários do que o amor aos seus candidatos. Nas redes sociais tem mais imagem do candidato derrotado , sendo achincalhado do que do ganhador ovacionado... Ou seja, o ódio supera o amor em larga escala e em ambas direções.
E o resultado é um país em que quase metade da população está descontente e isso faz diferença sim, de uma vitória de "chocolate".
Eu gostaria muito que isso fizesse a diferença daqui para frente, que a maturidade política cedesse lugar à paixão e que com mais equilíbrio pudesse fazer ver que precisamos de mudanças.
Eu sou uma pessoa que sonhava com uma mudança real, que fosse mais abrangente e que não permitisse, de jeito nenhum que acontecesse aquilo que sempre condenamos e que graças a esse ideal nos fez chegar à presidência da república,,, um dia...
Mas eu continuo sendo Guarany de Bagé, o time do meu avô, Seu Osmar!
Eliana